sábado, dezembro 29, 2007

On a Highway to Hell

Nos últimos tempos tenho andado a ler bastante sobre aquecimento global, ou alterações climáticas como agora é habitual dizer. Não descobri nada de muito novo, pois felizmente o problema já está muito bem estudado e há muitos anos que se conhecem as causas, os problemas e as soluções. Só para recapitular:

Toda a verdade sobre o aquecimento global

É mais ou menos isto... Resumindo a humanidade está a encher a atmosfera de gases que impedem a saída da radiação solar reflectida pela superfície da Terra, o que, qual estufa, causa o aquecimento do planeta. Esses gases são essencialmente o dióxido de carbono, o metano e alguns óxidos nitrosos, sendo as suas principais fontes a queima de combustíveis fósseis, a queima de florestas e algumas actividades agrícolas, ao mesmo tempo que a desflorestação reduz a capacidade do planeta reabsorver o dióxido carbono da atmosfera.
Mas mais interessante é ler de facto os dados em bruto. Ver o que já aconteceu e a larga gama de previsões que ao contrário do que certas forças querem fazer crer são bastante concordantes.
O planeta já aqueceu 0.8ºC desde o início do século XX. Pode não parecer muito, mas vejam no caos em que está o ambiente global, com inundações numas zonas, secas noutras, números recorde de tempestades tropicais, fenómenos nunca antes vistos como um furacão no Atlântico Sul (o Catarina que atingiu a costa brasileira em 2004), ou uma tempestade tropical nas costas da Europa (o Vince em 2005 ainda raspou a Península Ibérica). E que dizer das vagas de calor que todos temos sentido por cá?
Agora acontece que as previsões do IPCC, o painel intergovernamental para as alterações climáticas prevê que até 2100 a tempertura possa subir mais 1 a 6ºC. Esta larga margem de erro deve-se aos diferentes cenários previstos para as emissões de gases de efeito de estufa para a atmosfera. Um aumento de 1ºC corresponde a um cenário idílico e aparentemente impossível, em que a humanidade parava de produzir gases de efeito dentro dos próximos 10 anos. Já os 6ºC são um cenário catastrófico em que a produção desses gases continuará a aumentar ao mesmo ritmo que se observa actualmente.
O que significam estes aumentos de temperatura? É habitual ouvir alguém dizer, que ninguém nota a diferente entre uma temperatura de 22º e uma de, vá lá, 26º. Mas não estamos a falar de temperaturas instantâneas, estamos a falar da temperatura média de todo o planeta. Talvez seja mais fácil de compreender pensando num sistema fechado mais próximo, o nosso corpo. Aos 37º estamos felizes e contentes, subimos para 39º e mal conseguimos sair da cama, aos 40º começamos a delirar, aos 42º estamos às portas da morte. São apenas 5º a diferença entre um corpo humano saudável e uma febre que nos coloca às portas da morte.

No que respeita ao planeta, existem muitas ideias sobre o que poderá acontecer nas próximas décadas, com este aquecimento previsto. Caos. Um aumento de 1ºC apenas poderá causar quebras graves na produção agrícolas das zonas temperadas (Europa, América do Norte, Sudoeste Asiático, Austrália) as principais zonas de produção alimentar no mundo. Um aumento de 2ºC e o deserto do Sahara expandir-se à até ao Sul da Europa, com seca generalizada na bacia do Mediterrâneo, doenças tropicais como a malária poderão chegar tão a norte como as Ilhas Britânicas ou o Canadá. Se subirmos aos 3ºC esperam-se extinções generalizadas de muitas espécies animais e vegetais, incapazes de se adaptar às novas condições. Com tal aumento de temperatura estima-se, por exemplo, que não sobreviva nenhum recife de coral no mundo. Acima dos 4ºC de aumento da temperatura começamos a entrar em cenários apocalípticos. Extinção em massa, fome e miséria generalizadas, guerras emergiriam por todo o mundo como resposta à luta desesperadas dos povos pelos recursos cada vez mais limitados do planeta. O Árctico deixa de ter gelo e na Antárctida pouco sobrará, esse degelo aliado à expansão térmica das águas dos oceanos poderá levar a subidas do nível do mar da ordem dos 4 a 7m. As costas de todo o planeta recuariam dezenas, ou menos centenas de quilómetros em locais como o Bangladesh ou o Sul dos Estados Unidos. Muitas grandes cidades, albergando no total centenas de milhões de pessoas ficariam à mercê dos oceanos.

Chega agora a altura de respirar fundo e interiorizar o que lemos. Estamos a falar de um processo de alteração climática que está a decorrer, está bem provado e as suas causas bem definidas. Os resultados são potencialmente catastróficos e não estamos a falar de futuros longínquos, mas de eventos que muitos de nós conheceram ainda nas suas vidas (se a temperatura subir 6ºC até 2100, em 2050 quando a minha geração estiver a entrar nos 70 já estaremos em muito maus lençóis).
Devemos entrar em pânico. Sim devemos. E como tal reagir de forma imediata e com as medidas radicais que nos são exigidas. Se queremos sobreviver teremos que eliminar as fontes de gases de efeito de estufa dentro das próximas duas décadas, independentemente do que isso significar em temos de perda de qualidade de vida. Compreendam uma coisa, a alternativa é nada menos que o fim da nossa civilização.

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Um vaio para o caraças…

Para quem, como eu, não percebe nada de mecânica, deixem-me explicar que um vaio é uma barra metálica que corre paralelamente ao eixo, garantindo que ambos os pneus do eixo se mantém sempre paralelos, independentemente dos obstáculos que nos saltam ao caminho.

Ora eu faço anualmente milhares de quilómetros em caminhos de terra batida. Buracos, poças, areia, lama, todos os maus-tratos que se possam imaginar para um carro. Contudo, adivinhem qual foi o obstáculo que fez o vaio do meu carro ceder? Pois, foi um dos muitos buracos das ruas de Lisboa, mais especificamente um buraco em frente ao Colégio D. Maria Pia, na Rua de Madredeus em Xabregas. Queria aqui agradecer ao Dr. António Costa e aos seus antecessores no cargo de edil de Lisboa, pelas excelentes condições em que mantém as ruas da cidade.

Senhor presidente, mando a conta do mecânico directamente para si, ou mando através da tesouraria da câmara?

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Espectáculos aéreos em Lisboa

Para quem não conhece, um dos mais belos espectáculos da capital portuguesa são os imensos bandos de estorninhos que sejuntam ao final da tarde, sobre a zona do Cais do Sodré e Terreiro do Paço, a prepararem-se para passar a noite nas árvores da zona ribeirinha. São milhares e milhares de pequenas aves que desenham no ar figuras em eterno movimento.
Quando, como hoje, se junta à festa um falcão peregrino que anda a caçar os estorninhos ainda mais impressionante se torna esta dança nos céus de Lisboa.

quarta-feira, dezembro 26, 2007

O fim da Natureza?

Hoje uma prima minha vai ter um bebé, o parto vai ser por cesariana e já estava marcado para hoje desde à semanas. Mas eis o que descobri ontem.
Perguntava eu, a brincar:
- Vocês andaram a fazer pontaria para o Natal ou quê? Quase que acertavam!
- Não, não, a data prevista para o final da gravidez era dia 8 de Janeiro, mas como já sabiamos que teria de ser uma cesariana e o médico vai de férias dia 30 e só volta lá para 15 de janeiro, ele achou ,elhor marcar o parto já para esta semana. Como é amanhã que ele está de serviço, fica já feito amanhã.


E eu que pensava que a reprodução era um processo natural... Natural se os horários de expediente e as datas das férias o permitirem, claro!

terça-feira, dezembro 25, 2007

Prenda de natal

Pode soar a lamechice, parolice, o que queiram, mas muito sinceramente, se pudesse escolher uma prenda de Natal, que fosse um mundo novo onde todas, mas mesmo todas as pessoas pudessem ser felizes e não necessitassem assim de por em causa a felicidade dos outros. Sem tisteza, sem inveja e sem maldade.

Infelizmente, todos abandonamos esse mundo ao passar os 2 ou 3 anos de idade, não me parece que seja possível lá voltar. Mas este Natal, sejam felizes. A sério, sejam felizes, espero que consigam. :)

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Está de volta onde?


Não fui capaz de deixar de me interrogar do que falaria hoje a primeira página do Record com o título "O leão está de volta". Assumindo que não é mesmo algum leão que está de volta ao Zoo de Lisboa e partindo do princípio que estão mesmo a falar do Sporting, ele está de volta onde? De volta ao campeonato não deve ser de certeza, que os 12 pontos que dista do Porto assim o dizem. Resta-me concluir que o Record anda numa de regionalista e decidiu dedicar-se exclusivamente ao nosso campeonato da segunda circular, a esse sim a lagartagem está de volta, já a apenas 2 pontos do Benfica, mas atenção ao Sp. Braga que vem por aí acima a subir na classificação que nem um foguete, não tarda deixa as equipas da segunda circular a ver navios...
Resta-me a satisfação de ver que ao mesmo neste campeonato, o da segunda circular, o benfica vai em primeiro!

sábado, dezembro 15, 2007

O triste fado luso

Quantas vezes o nosso olhar embalado pelas ondas do mar não nos leva até pensamentos escondidos que não tínhamos ainda percebido que tínhamos? Não é pois isto aquilo a que se chama meditar? Não o meditar dos místicos, aquele que procura a total calma interior, mas o meditar dos filósofos, daqueles que procuram perguntas, que anseiam por encontrar mais uma pergunta atrás de cada resposta.

Pensava eu assim num dia como outro qualquer quando me assolou um pensamento estranho, desavindo. Fará sentido existir um português feliz? Não será a tristeza crónica, este aparente pesar pela felicidade de estar vivo um ponto tão importante da alma lusa como o são as sardinhas em Junho ou a língua portuguesa que dá vida ao nosso pensar?

Nunca ninguém o terá dito tão eloquentemente como Amália, ao cantar “Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é Fado”. Esse Fado, que mais do que música pretende ser a crónica do fado de ser português. Será pois este fado triste, triste não por o ser, mas por ser assim que o sentimos, a melhor definição do ser português?

Pois assim o seja, pois conclui-se assim que nos devemos satisfazer em cada momento de tristeza, pois é aí que nos definimos como portugueses. Ficar feliz por estar triste, estar triste por ser feliz, é pois esta ambiguidade aparentemente bicéfala que nos define.

Perguntaste-me outro dia
Se eu sabia o que era o fado
Disse-te que não sabia
Tu ficaste admirado
Sem saber o que dizia
Eu menti naquela hora
Disse-te que não sabia
Mas vou-te dizer agora

Almas vencidas
Noites perdidas
Sombras bizarras
Na Mouraria
Canta um rufia
Choram guitarras
Amor ciúme
Cinzas e lime
Dor e pecado
Tudo isto existe
Tudo isto é triste
Tudo isto é fado

Se queres ser o meu senhor
E teres-me sempre a teu lado
Não me fales só de amor
Fala-me também do fado
E o fado é o meu castigo
Só nasceu pr'a me perder
O fado é tudo o que digo
Mais o que eu não sei dizer.

Amália Rodrigues

quinta-feira, dezembro 06, 2007

ASAE - Se a virem, matem!

Da próxima vez que forem beber um café a uma esplanada pode acontecer que este vos seja servido num copo de plástico. Podem depois pedir uma cerveja ou um sumo e ambos viram também acompanhados de um copo de plástico. Se perguntarem ao empregado se não poderia antes trazer o café num chávena de porcelana, como seria natural, ou se pedirem antes um copo de vidro para o sumo, ouviram a resposta: "Peço imensa desculpa mas não posso, são os regulamentos da ASAE".
A mesma explicação ser-vos-à dada quando notarem que já não existe vendedor de bolas de Berlim na praia, ou que aqueles rissóis tão bons que eram vendidos no café do vosso bairro, feitos pela vizinha da frente foram substituidos por rissóis de fabrica, devidamente empacotados.
De acordo com as normas da ASAE, todos os produtos alimentares deveram ser empacotados e devidamente etiquetados com data de produção e prazo de validade. E que os deuses vos livrem de usar uma colher de pau, ou um galheteiro, ou mesmo de usar a mesma faca para cortar as cebolas e pão (mesmo que a tenham lavado entre as duas utilizações).
Ora eu pergunto, e desculpo-me antes pelo português mas as coisas são para se dizer: Mas esses xoninhas apaneleirados da ASAE comem merda à colherada todas as manhãs ou foram violados à bruta por um tio quando eram pequenos? Essa gente (não os fiscais, mas quem define as regras) tem noção do absurdo do que andam a fazer? Depois dizem que são regras europeias e tal... em Amsterdão continuam a servir o café em chávenas, em Madrid continuam a ser usados galheteiros e em Bruxelas continuam a fazer gaufres nas ruas sem terem de os embalar ou etiquetar de que forma for. Deixem-se de merdas.
Parece que a politica é tirar-nos todos os prazeres da vida. Em quero comer bolas de Berlim, mesmo depois de manuseadas pelas mãos imundas do vendedor, quero as minhas castanhas embrulhadas num funil de papel de jornal, ou lista telefónica, que comer rissóis acabados de fazer pela Ti Gertrudes em vez de porcarias pré-fabricadas da PescaNova. Um café num copo de plástico? Esse é o maior atentado à cultura português desde do tempo dos Filipes de Espanha!
E. como se isso não bastasse, o impacto ambiental destas medidas ridículas? Ele são copos de plástico, embalagens de plástico, pacotes para aqui e para ali. O plano é multiplicar por 10000 a quantidade de lixo produzida pelos portugueses? Fecharem a Ginginha de Lisboa já foi um crime lesa estado, mas estas medidas desperdiçadoras e anti-ambientais roçam o atentado contra a humanidade.


Portugueses, juntem-se. Vamos fazer abaixo-assinados, vamos para as ruas gritar, vamos fazer o que for preciso, mas não vamos entregar assim o país de mão beijado à ASAE!!!!

domingo, dezembro 02, 2007

Eles

Não há nada mais típico na nossa linguagem do que o "Eles". Eles são os actores incógnitos, incertos e invisiveis de todas as coisas. Eles podem ser os responsáveis pela cura do cancro, assim como eles podem ser os responsáveis pela fome em África. Eles surgem habitualmente em frases como: "Vi ontem na televisão que eles vão fazer uma nova barragem no Rio Lima" ou "Eles poem lixo lá em cima no céu e depois o tempo anda assim todo avariado" (esta da autoria da minha avó).
Quem são eles? Ou quem são Eles? Ou quem são E.L.E.S.?
Serão as Empresas Lituanas de Estivagem e Saúde? Ou o Estado Liberal das Elites e do Sócrates? Caraças, agora que escrevi Sócrates neste post tenho de passar a explicar aos senhores que lêm estas coisas que não me referia aqui ao Sr. Dr. Eng. José Socrates, ilustre primeiro ministro da República Portuguesa. Não. Pensava eu num filósofo grego, há muito especializado na arte de fazer de tijolo. Ou esperem, não, era o grande Sócrates, o número 10 da selecção brasileira que deslumbrou no Mundial de 82, para depois perder o tornéio para a Itália.
Aliás, eu nem queria ali escrever Sócrates, referia-me à Só Crates, uma empresa especializada na empacotagem e transportes de volumes em caixotes (ou em inglês crates).
Mas falava eu dos tais eles. Dos quais posso dizer que eu não sei quem são. Serão eles que leêm ou ouvem o que o pessoal diz e depois os despedem da função pública, ou serão eles quem pôs o Bush no governo dos Estados Unidos. Eles, onde quer que estejam, posso juntar-me a vocês? Assim passariam a chamar-se Nós, o que tinha a vantagem principal de poder ser o acrónimo do Núcleo Oftalmológico de Souselas, que ainda por cima era coisa que dava jeito da maneira que devem andar os olhos de quem tem de navegar todos os dias de pestanas ligadas pelos ares que circundam a cimenteira que a Cimpor tem por lá.
Caros leitores, se ainda estão a ler... pá é que não devem mesmo ter nada de útil para fazer!

sexta-feira, novembro 30, 2007

Histórias de Guerra

Depois da batalha. Espalhado o sangue pelos campos, decepados os braços e pernas, sofridas as mortes e os ferimentos, o soldado, um dos poucos sobreviventes da matança ergueu-se com esforço por entre escombros chamuscados e corpos ensanguentados, esfregando ainda a fuligem que, misturada com as lágrimas lhe fazia arderem os olhos.
Olhou o céu de Outono, cinzento com laivos azuis, e penso para consigo: Poderei eu um dia ter uma vida normal?

terça-feira, novembro 20, 2007

Toda a verdade sobre o novo aeroporto

Não é ser mete nojo, mas vejam só esta interessantíssima reportagem da SIC. Digo-o eu que sou "completamente imparcial".
São os meus 15 segundos de fama, pronto. Se servir um pedacinho que seja para evitar a construção do aeroporto num local absurdo, terá valido a pena.

terça-feira, novembro 13, 2007

Toda a verdade sobre um doutoramento

Imagino que qualquer pessoa que faz um doutoramento passa uma parte considerável do seu tempo a pensar se os possíveis ganhos que advenham de um doutoramento algumas vez valerão os sacrifícios que ele acarreta. A resposta é só uma, um sonoro e cáustico NÃO. Claro que há bons momentos, há alegrias, muitas coisas até fazem valer a pena; contudo, nunca de forma alguma tudo isso compensa os sacrifícios. O stress acumulado que potencialmente ficará para toda a vida, os maus tratos à nossa saude, os maus tratos à nossa vida social, o tempo perdido a trabalhar que puderia ser usado para viver, os muitos momentos de descrença, a dúvida como forma de vida, a certeza de que tudo isto não virá a ser compensado por benefícios significativos à nossa vida.
Hoje apanhei-me a pensar, o que é que o doutoramento alguma vez fez por mim? Em que é que ele alguma vez contribuiu para a minha felicidade? Se eu não fosse tão teimoso e incapaz de deixar coisas a meio acho que tinha acabado com o doutoramento logo ali. Continuei e horas depois recebo um telefonema de um jornalista da SIC, interessado em me fazer perguntas sobre o meu trabalho, devido ao seu potencial impacto na escolha do local do novo aeroporto de Lisboa. Pronto, esta foi uma dessas raras ocasiões de satisfação, afinal o meu trabalho até tem, por vezes, alguma utilidade...
Enfim, dizem os autores da BD que aqui coloquei que fazer um doutoramento é viver num limbo. É a verdade.

Um conselho a eventuais leitores: Não se metam num doutoramento nem que disso dependa a vossa vida!

O teste INTJ

Segundo o teste INTJ eu sou assim:

  • moderately expressed introvert
  • slightly expressed sensing personality
  • moderately expressed thinking personality
  • slightly expressed judging personality

Sendo descrito pela fórmula: 56% Introvertido, 12% Sensitivo, 25% Pensativo, 1% Julgador

O mais cómico é que segundo este teste eu estou especialmente apto para uma carreira em gestão ou contabilidade. Ainda bem que eu não acredito muito em psicologia... Pelo menos na deste tipo!

sexta-feira, novembro 09, 2007

O vôo do pardal

Hoje apeteceu-me voar. Ia no autocarro aos trambolhões, por entre os sobe-e-desces das sete colinas de Lisboa quando avistei um pequeno pardal, senhor no seu domínio dos céus. Senti inveja, uma inveja intensa, quase infinita. Quis logo ali sair do autocarro. Quis que me nascessem asas nos braços, que o meu corpo se revestisse de penas. Quis fazer do ar o meu palco e nele desenhar as mais belas acrobacias. Quis voar, esvoaçar, planar, dançar no ar, sobre as árvores e sobre os prédios.
Enfim, hoje apeteceu-me voar, mas tive de me contentar, e caminhar.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Letras e batidas...

Uma boa batida, uma letra surreal, um video original, e eis uma grande musica dos 00s. So por curiosidade, fica aqui a traducao da letra...

Começámos a viver numa velha casa
A mãe deu à luz e nos estávamos a ver
Era um rapaz
Por isso comprámos-lhe um brinquedo
Era uma arma de raios
E foi em 1981

Chamámos-lhe Bébe
Ele teve dor de dentes
Ele começou a chorar
Parecia um terramoto
Não durou muito tempo
Porque eu calei-o

Peguei numa boneca de trapos
E espetei-lhe alguns alfinetes
Agora somos família
E agora estamos bem
Temos dinheiro e uma pequeno sítio
Onde agora lutamos

E nós não te devemos
Mas se nos vires por aí
Tenho outra coisa para te mostrar
Agora é mais fácil quando não sabes melhor
Achas que é manhoso
Nós mantemo-nos quentes

Mas à algo de errado quando tu
Sentes que és o botão mais difícil
De abotoar
Eu tinha opiniões
Que não interessavam
Eu tinha um cérebro
Que parecia massa de panqueca

Eu tinha um quintal
Sem nada nele
Excepto um pau
E um cão
E uma caixa com algo nela
O botão mais difícil de abotoar

O botão mais difícil de abotoar
O botão mais difícil de abotoar
O botão mais difícil de abotoar
O botão mais difícil de abotoar
O botão mais difícil de abotoar
O botão mais difícil de abotoar

(The hardest button to button)
The White Stripes

sexta-feira, outubro 05, 2007

O caminho

Há muitas coisas injustas neste mundo. Muitas pessoas que morrem sem o merecerem, muitos pais que veem um filho morrer sem o merecerem, muitos que vivem vidas felizes até aos 90 sem o merecerem, criancas que sofrem doencas horriveis sem as merecerem, soldados que matam outros soldados no campo de batalha sem o merecerem, tristizas que nos chegam sem as merecermos, alegrias que nos tocam sem as merecermos.
E nós, que fazemos nós? Lutamos, sorrimos, sofremos, cantamos, choramos, vivemos e amamos. Sao muitos os tranbolhoes e muitas as dificuldades, mas também sao muitas as alegrias e as boleias, sempre em busca do nosso caminho.
E quando o encontramos? Quando o encontramos compreendemos finalmente que tudo afinal valeu a pena.

quarta-feira, setembro 26, 2007

Size matters!

Tenho andado a ler o "Ancestor's tale" um livro muito interessante do Richard Dawkins. Um dos muitos temas que ele toca é a evolução do Homem e fala na questão do porque de o nosso cérebro ter evoluído daquela maneira desmedida, nos ultimos 2 milhões de anos. A teoria dele é: Selecção Sexual.
Para os não versados em jargão evolutivo, a selecção sexual é uma forma de selecção natural efectuada pelos indivíduos de um sexo sobre os indivíduos do sexo oposto, levando estes últimos a evoluir no sentido de desenvolver determinadas características favorecidas pelo outro sexo na altura de escolher um parceiro. Resumindo, isto significa que, a partir de um determinado momento do nosso passado evolutivo, as mulheres começaram a preferir homens com cérebros maiores (o inverso também pode ser valido, homens a escolher mulheres com cérebros maiores, mas geralmente o sexo feminino tem um palavra mais forte na selecção sexual).

Ou seja, o tamanho conta... o tamanho do cérebro!

quinta-feira, setembro 20, 2007

Quintas -feiras Culturais XXXVII

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que eu quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.

Peço-Te que inundes tudo.

E que o teu reino antes do tempo venha.

E se derrame sobre a Terra

Em primavera feroz precipitado
.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, setembro 19, 2007

Globetrotter

Hoje comecei a fazer umas contas de cabeça, depois liguei o Google Earth e decidi medir mesmo, desde meados de Julho, até ao final de Outubro terei viajado um total de 24000 Km, passando pela Holanda, Estados Unidos, França, Suécia e Portugal!! Há é muito bonito viajar e tal... De facto, é bom viajar, seria uma grande hipocrisia queixar-me destas viagens todas, mas o que é demais também farta, o que me apetece mais é plantar-me em Portugal e não me mexes muito por uns bons tempos!!

quarta-feira, setembro 12, 2007

As minhas 7 maravilhas

Decidi escolher as minhas maravilhas de Portugal, que não têm necessariamente de ser sete...

- passear pelas vertentes do Côa e do Águeda, junto a Freixo de espada a Cinta, por alturas do fim do Inverno, e ver as amendoeiras em flor.

- nadar até à Ilha do Pessegueiro num dia quente de Verão.

- apanhar um cacho de uvas nas vertentes do Douro, ali para os lados da Régua.

- apreciar um pôr do Sol a partir da Ponta de Sagres.

- chapinhar à beira Tejo, junto às Portas do Rodão e avistar lá no alto os abutres e as cegonhas pretas.

- sentir os salpinhos do mar, no Cabo Carvoeiro, num dia de tempestade.

- dar um mergulho no rio Vascão e abrir bem os olhos naquelas águas limpas e transparentes

- caminhar por entre pedras e capos de cereais, nas planícies douradas de Castro Verde e espantar um bando de enormes abetardas.

- ver o nascer do Sol das muralhas do castelo de Monsaraz.

- descer as falésias, entre a Foz do Arelho e S. Martinho do Porto, e cheirar profundamente aquele cheiro único a mar salgado.

- deitar nas lages de xisto, junto à ribeira de Alcarrache, e sentir o corpo ser acarinhado pelo calor do Sol e pelo calor da pedra, com o som da ribeira a correr ao fundo (esta maravilha está agora, infelizmente, uns bom metros debaixo de água, sob a Albufeira do Alqueva...)

- apanhar uma chuvada nas matas quase pristinas do Gerês.



Já agora, posso também acrescentar as 7 desgraças:

- todos os membros da Assembleia da Républica.

- praias algarvias atulhadas de turistas do mar até à estrada.

- o futebol português em geral e o livro da Carolina Salgado em particular.

- o caso Maddie e as violações do segredo de justiça.

- a televisão portuguêsa.

- a albufeira do Alqueva.

- emigras a passear com um arraial de filhos pelas ruas de Lisboa em Agosto e a gritar "Fabian vien aussi, vien aussi caralho ou levas nos cornos!"

- gente que trata o filho por você.

- um gajo vestido à manga cava, com o pelâme do peito a saír de fora e tatuagens "Amor de mãe" e "Angola 69" nos braços que deixou o carro mal estacionado, meio em cima de um passeio, meio no lugar de um deficiente e que depois de insultar todas as pessoas à volta e se queixa de falta de respeito pelos veteranos do ultramar quando é multado pela polícia.

- toda e qualquer pessoa que fala à "tia de Cascais".

terça-feira, agosto 28, 2007

Por uma nova literatura...

Nao sei porque tenho por vezes o instinto de tentar explorar questoes dificeis da natureza humana, porque procuro por vezes respostas inexistentes para as mais temiveis inquietacoes do nosso ser, quando essas inquietacoes nao fazem sequer parte da minha vida actual. Penso que algures la no fundo tenho algo de filosofo. De filosofo ou de poeta. Por isso, apesar de já alguém que gosta muito de mim me ter aconselhado por vezes a nao me inquietar com inquietacoes que nao sao minhas, vou questionar mais um capitulo da vivencia humana.
Nada existe de mais tipico na literatura, ou no cinema, do a clássica prova de amor pela morte. Isto é, na literatura, a prova de amor clássica é: "eu morria por ti"... Contudo, faz isto algum sentido? O que é que essa frase prova? Um amor e devocao inquebraveis, ou uma enorme cobardia e egoismo?
Eu morria por ti... diz o herói vitoriano. Morreste, pronto e agora? Depois desse sacrificio maior, o dito Romeu está morto, livre de todas as dores e sofrimentos terrenos, livre de todos os problemas e preocupacoes. Já aqueles que ele deixou para trás, nomeadamente o alvo desse amor inquebrantável, ficaram para sempre com o fardo dessa morte para lidar, com a solidao, com o sentimento de culpa, com a dor, com o luto e possivelmente com o continuar dos problemas que levaram a essa morte, pois achar que a nossa morte vai resolver algum problema deste mundo, por simples que ele parece, e pura megalomania.
Eu digo-vos o que tal morte seria: seria cobardia, seria fuga dos problemas, seria tudo menos um acto de amor.
Querem saber qual eu acho que seria a frase correcta para colocar no tal tipico diálogo literário? Seria algo com: "por ti, eu sofria em cada dia da minha vida as tuas dores, até ao ultimo dos meus dias".

Vá, agora caros escritores vao lá refazer os vossos livros...

quinta-feira, agosto 23, 2007

Holandês, essa bela linguagem

Acabei de descobrir que uma das áreas de estudo do projecto em que estou a trabalhar, aqui na Holanda, tem o bonito nome de Schuilenburgsterpolder. São 22 letras, acham isto normal?


E para melhorar a coisa, pronuncia-se, mais ou menos: Xrraulénburguessterpolder...

segunda-feira, agosto 20, 2007

Maleitas

Gostaria de agradecer do fundo do coração à Lufthansa, companhia aérea alemã que me transportou no regresso à Europa. Como não podia deixar de ser apanhei uma pujante virose a bordo e aqui ando à três dias a fungar e espilrar e tossir, arrastando por esta desgraçada Holanda uma febre uma carga de virus que só visto...
O conceito é simples. Colocam-se umas duzentas pessoas no espaço confinado do avião e recicla-se o ar durante a viajem inteira, de modo a que ao chegarem ao destino já todas respiraram o mesmo ar umas 800 vezes... junte-se a isto as agressões naturais de uma viajem, sejam elas variações bruscas de temperatura e de pressão, o stress da viagem, pouco sono ou alimentação menos que ideal que deixam o corpo mais susceptível aos vírus. É certo e sabido que pelo menos uma pessoa das 200 vai estar doente, é certo que vai propagar o vírus pelos outros 199... e aqui estou eu, à beira do delírio, com 38,5º de febre. Aaaaatchiimm!!

domingo, agosto 19, 2007

Hands-free technology


Hoje em dia a tecnologia toma conta de tudo, dos telefones, dos computadores, qualquer dia até os carros são hands-free. Ora agora... acompanhem este meu raciocínio. A ideia é que com o equipamento hands-free podemos ter as mãos livres (coo o próprio nome indica) para fazer aquilo que realmente importa, que obviamente não é falar ao telefone. Agora eu pergunto, se essa outra coisa é suficientemente complexa para nos ocupar as duas mãos, não seria talvez boa ideia ocupar também o cérebro com ela?

sexta-feira, agosto 10, 2007

Know your religion

Do you not know that the unrighteous will not inherit the Kigdom of God? Do not be led astray; neither fornicators nor idolaters, nor adulters nor effeminate nor homosexuals.
Nor thieves nor covetours, not drunkards, not revilers, nor the rapacious will inherit the Kingdom of God
Corinthians 6:9-10


Ficamos assim a saber que, segundo a bíblia, a homossexualidade, a idolatria, a fornicação e o alcoolismo são crimes mais graves, aos olhos de Deus, do que o homicídio...

quinta-feira, agosto 09, 2007

Gollum's Song

Esta música faz parte da banda sonora do segundo filme do senhor dos anéis, "As Duas Torres". Segundo consta na net, era a Björk que ia cantar esta canção, mas estava na altura numa fase asientada de gravidez pelo que tiveram de procurar uma substituta, tendo sido escolhida esta Emiliana Torrini, cantora italiana que aqui podemos ouvir. Uma substituta à altura eu dizia. Uma bela música e uma excelente voz.

quarta-feira, agosto 08, 2007

New York, New York

Ponham de parte filosofias, ideologias e preconceitos. Esqueçam ideias pré-feitas e obsessões. Se um dia tiverem oportunidade de visitar New York, corram, saltem, voem até lá, nem que seja só por um dia ou dois. É uma experiência única, inesquecível e imprescindível!
A sério, é uma cidade absolutamente extraordinária. Desde o buliço infernal na imensa sala principal da estação de Grand Central, ao calor sufocante do Subway; desde o inevitável torcicolo de quem passa um dia a olhar maravilhado para cima até às inevitáveis dores de pés que vão sentir depois de palmilharem esta cidade tão enorme, mas também tão misteriosamente bem feita para passear pé.
Passem pelo Central Park, desçam até ao Batery Park para avistar ao longe a Lady Liberty, caminhem pelo Financial District até vos doer o pescoço de tanto olhar para a altura impossível dos prédios. Vão até Canal Street comprar relógios baratos, passeiem por Chinatown à cata de vegetais estranhos, sumos de coco acabado de abrir na rua e sapos vivinhos prontos para irem para a sopa. Ainda em Chinatown, provem alguns Dim Sum, depois dêem um salto a Little Italy e comam um belo gelado italiano para sobremesa, ou ouçam uma competição de cantores de ópera nas ruas, rodeados da habitual massa de pessoas que falam virtualmente todos os idiomas do mundo à vossa volta.
Apreciem uma banda de jazz que toca num qualquer parque da cidade, ou vejam um malbarista a lançar no bolas, pedras, facas, skates e vá-se-lá saber mais o que... E acima de tudo apreciem bem a incrível multi-culturalidade desta cidade feita de pessoas de todos os cantos do mundo. Os Estados Unidos podem ser uma nação racista e xenófoba, mas não é esse o caso de New York.
Depois passeiem pelo SoHo e por Greenwich Vilage, ou dêem um salto a Eastern Village e apreciem o aspecto simpático dos bairros mais acolhedores de New York, com os seus pequenos cafés e bares e pequenas lojas pelas ruas. Para comer vão onde quiserem, comida boa é o que não falta, vinda de todo o mundo, mas não deixem de comer um Hot Dog e um Pretzel comprados nas ruas, fazem parte da experiência novaiorquina, assim como um pequeno almoço de Baggels com cream cheese.Para acabar, não deixem de visitar o Empire State Building. Eu fui lá de noite, como podem ver na foto. Ver aquela cidade lá do alto é uma experiência arrepiante. Ali sim sentimos por um momento que estamos no topo do mundo. Por uns segundos percebemos porque razão os americanos se acham os maiores. Depois descemos, apanhamos um taxi conduzido por um Bangladeshe que tem um irmão a viver em Portugal e percebemos a realidade. New York não é americana, nunca foi. Nasceu Nieuwe Amsterdaam, assente pelos Holandeses sobre a desgraça dos indios americanos. Depois vieram os ingleses e depois vieram todas as nacionalidades do mundo, cada uma contribuindo um pouco para esta cidade que é em todos os aspectos o centro do mundo. New York é de nós todos, não tem nacionalidade. Vão lá e vejam por vocês!

quarta-feira, julho 25, 2007

U.S.A.

Quis o destino, ou antes a minha vontade, que rumasse a terras do Tio Sam para as férias. Aqui tenho estado, no belo estado da Virgínia a apreciar as estranhezas deste país tão diferente da Europa.
Tem coisas boas, muito boas mesmo. Tem muito verde, muito espaço, a Natureza ainda existe, pelo menos fora das grandes cidades, pois este país é imenso e muito longe de ficar sobre-lotado, como a nossa Europa, que é mais estilo lata de sardinhas. As pessoas tendem a ser simpáticas, apesar dessa simpatia ser por vezes excessivamente artificial e na verdade, apesar do que se diz, como-se muito bem por aqui, a começar pelos hamburgeres, os famosos hambrgueres americanos, mas que têm tão pouco que ver com aquelas porcarias que se comem por aí nos McDonalds e afins que nem merecem o mesmo nome. Aqui, talvez pela primeira vez, comi um hamburguer realmente bom! Também recomendo os bolos, as bebidas dos cafés e o clima quase tropical.
Também tem coisas menos boas, muito más mesmo. O nível cultural é muito mais baixo que o da Europa, as pessoas estão mal informadas e gostam de ser assim. A informação é escassa e obviamente controlada e pouco se sabe aqui do que se passa para lá do quintal da vizinha. Mesmo os melhores jornais, como o New York Times ou o Washington Post têm muito pouca informação sobre o que se passa no mundo, sendo essa quase limitada ao Médio Oriente e outras zonas onde existem grandes interesses americanos. Depois há o lado ambiental, cada americano produz uma quantidade inacreditável de lixo, muito mais do que nós na Europa e os carros, gigantescos, gritam a todos o seus imensos consumos.

Para a próxima semana esperam-me New York e Washington, espero ter mais para contar depois de visitar os centros de poder da super-potência...

domingo, julho 08, 2007

Pontapé de bicicleta - parte 2

Se o golo do Hugo Sanchez foi uma das melhores bicicletas de sempre, esta, do grande Marco Van Basten, é quanto a mim o melhor golo marcado em pontapé de bicicleta de sempre!

O Pontapé de bicicleta

Agora que os calores do Verão mantém o futebol longe dos relvados e que os adeptos começam a ficar sequiosos, mostrando os primeiros sinais da tradicional "fome de bola", uma homenagem ao mais belo dos movimentos do desporto rei. O Pontapé de Bicicleta.
Lembro-me de ser pequeno e ver um pequeno mexicano, de seu nome Hugo Sanchez que semana após semana maravilhava a Europa com brilhantes bicicletas ao serviço do Real Madrid. Vejam o vídeo, o ultimo golo, ou o primeiro na verdade, é sem duvida uma das melhores bicicletas da história do futebol!
Fica aqui a inspiração, para as futeboladas de Verão na praia...

sexta-feira, julho 06, 2007

O Holandês Voador

Ontem fui ver o Pirates of the Caribean 3, que recomendo vivamente a todos. Muito divertido mesmo! Mas fiquei cheio de curiosidade quanto à lenda do Holandês Voador, que foi adaptada de uma maneira bastante original nestes filmes. Andei a pesquisar as origens da lenda e, ao que parece, a história original tem muito pouco que ver com o capitão Davy Jones e o seu coração partido pela traição da sua amada deusa do mar Calypso, dos filmes.
Ao que parece, apesar de existirem possivelmente origens ainda mais antigas para a história, o Holandês Voador original foi o Cpt. Bernard Fokke, capitão holandês do século XVII de quem se dizia ter feito um pacto com o diabo devido à fantástica velocidade com que completava as viagens entre a Holanda e Java. Contudo, a lenda do Holandês Voador surge mais tarde em diversos exemplos de literatura e musica, com o Cpt. Hendrik van der Decken, capitão do De Vliegende Hollander, um brigue holandês do início do sec. XIX, que durante uma tempestade ao largo Cabo da Boa Esperança lançou um desafio aos ventos tempestuosos que lhe dificultam a travessia, dizendo que preferia enfrentar a tempestade até ao dia do Julgamento Final a desistir e levar o barco para um porto. Reza a lenda que o diabo lhe fez a vontade, condenando-o e à sua tripulação a percorrerem para sempre os mares sob terríveis tempestades, enquanto o capitão e o diabo em pessoa jogam aos dados pela alma do capitão.
Assim, o Holandês Voador terá sido avistado frequentemente na história naval, sempre em dias de tempestade, em diferentes partes do globo, sendo a sua presença augúrio de tragédias navais. Mais tarde, algumas adaptações literárias e, nomeadamente, numa ópera de Wagner foi introduzida a ideia, adaptada no filme, que era permitido ao capitão ir a terra uma vez em cada 7, 10 ou 100 anos (dependendo da fonte) para visitar, nuns casos, a sua amada, noutros casos uma qualquer mulher disposta a partilhar o seu destino.

Esta música é tão doce, tão bonita, mas ao mesmo tempo tão triste...
Fantástica!

domingo, julho 01, 2007

Manifesto

Aquilo em que um homem acredita é real, se um número suficiente de pessoas acreditar na mesma coisa, esta torna-se a realidade.

Gosto da palavra alienado. Gosto, pronto. Alienado, tornado alienígena, parece que estamos a dizer que antes era normal, mas depois ficou estranho, um estranho em sua casa. Um alienígena é um estranho num local estranho, um alienado é aquele que é simplesmente um estranho na sua própria casa.

É curiosa a expressão: “estão a alienar o X”. Na verdade não faz sentido. Ninguém pode alienar alguém, é sempre alguém que se aliena da realidade. Podemos desprezar, abandonar, rejeitar ou expulsar alguém, alienar não. Qualquer uma das acções resultaria em retirar a casa a alguém, afasta-lo do seu local, não o estaríamos a tornar um estranho em sua casa porque ele teria perdido a casa.

Enfim, estou a desviar-me da questão. Comecei com uma citação de uma personagem do Million Dollar Hotel, um filme fantástico do Wim Wenders. Só me lembrei dos alienados porque era essa a características em comum entre as várias personagens desse filme. Mas, voltando à frase, será a realidade assim tão fácil de perceber?

É preciso ter cuidado ao discutir algo tão complexo como a realidade. Há um risco sério de nos tomarem por loucos, por qualquer razão a nossa sociedade tem como pecado máximo a rejeição da realidade instituída. O nosso apego ao paradigma que convencionamos chamar realidade é tal, que nos forçamos por afastar todos os que põem em dúvida esse ideal. Pudera! Deixar de acreditar na realidade é rejeitar o referencial em que assenta o nosso pensamento, como um avião que a meio da viagem deixa de ter acesso à sua posição x,y,z. Por outro lado, é entrar na filosofia mais profunda. Lembro-me logo da caverna de Platão. Platão questionou a realidade da realidade, foi talvez o primeiro a fazê-lo, o primeiro dos alienados. Depois veio a tornar-se o expoente máximo de uma linha de pensamento que originou todo o arcaboiço do pensamento da nossa sociedade moderna, pelo menos no “Ocidente”.

O que é então a realidade? As nuvens são reais, o céu é realmente azul e o oceano é azul, profundo e lindíssimo. As árvores têm, em geral, folhas verdes, alguns animais comem plantas, e aquele bife que comemos ao almoço era realmente um pedaço de uma vaca. Tudo isto é a realidade. O problema é que existe toda uma série de coisas que pensamos fazerem parte da realidade, mas que dificilmente são reais aos olhos de alguém com metade do intelecto de Platão.

Por exemplo, não é realidade que vivemos numa sociedade livre onde a livre expressão é a regra. Na verdade, a livre expressão acaba onde os meios de comunicação querem que ela acabe. O grande feito dos filósofos do renascimento foi anunciarem aos sete ventos que não podemos acreditar nas verdades feitas, que temos de criar as nossas verdades a partir daquilo que nós observamos. O problema é que hoje em dia até aquilo que observamos nos é controlado, a nossa grande fonte de informação é a televisão, e seria difícil encontrar um canal mais filtrado do que esse. Felizmente existe a Internet, esse grande bastião da anarquia, onde a única regra é a total liberdade, a verdadeira liberdade que nos é negada pelas nossas falsas democracias oligárquicas. Mas a Internet tem um senão, é difícil perceber que parte daquela informação é fiável, tal é a quantidade de baboseiras que se acumulam por lá. Penso que é esse o preço a pagar pela verdadeira liberdade, pelo menos a mim não me parece um preço muito elevado.

Se pararem um momento para pensar, quase tudo aquilo em que acreditamos assenta-se em conhecimentos que nos chegaram por via remota, mas em que decidimos acreditar. Não estou a dizer que não sejam reais, estou certo de que realmente existe uma cidade chamada New Orleans que foi arrasada por um furacão, ou que existe um país chamado Iraque, arrasado pelas bombas americanas. O problema é que entre as linhas principais deste conhecimento, é extremamente fácil enfiar pequenas mentiras nas entrelinhas. Não estou aqui a dizer que vivemos num gigantesco Truman Show, pelo menos acho que não. Só queria provar o argumento de que nem tudo o que reluz na televisão é necessariamente ouro.

E foi assim que chegamos ao absurdo da cena política internacional. O preço do petróleo sobe de cada vez que um opossum dá um peido a menos de 80 km de uma refinaria na Venezuela, as bolsas caem por motivos tão absurdos como o clima ou um rumor de um negócio manhoso do outro lado do mundo. A incompetência das classes governantes é de tal forma óbvia que já não é sequer questionada. Na verdade os próprios políticos admitem a sua imbecilidade, limitando-se a anunciar que são um pouco menos imbecis, ou um pouco menos criminosos do que os seus concorrentes. O mais triste, é que as pessoas estão de tal formas apanhadas nesta trama que acreditam neles e votam neles. No ano passado ouvi uma pessoa normalíssima, em Lisboa, sem qualquer ligação a Felgueiras, defender a Fátima Felgueiras sob o argumento que “ela não rouba mais do que os outros”. É verdade, na realidade é já um facto assumido que todos os autarcas são corruptos, o que não é normal é termos chegado ao ponto de aceitar isso como uma falha aceitável, uma inevitabilidade da vida política. Revolta-me profundamente a ideia de que as pessoas estão já tão totalmente apanhadas nesta ilusão. Se chegamos a este ponto, de que forma estamos mais conscientes do que na visão maníaco-catastrofista do Matrix, de toda uma humanidade aprisionada num Universo criado artificialmente por máquinas. A única diferença é que aqui estamos realmente conscientes e mesmo assim aceitamos ter a vista toldada por esta ilusão criada por uns quantos para manter o povo na linha.

Onde começou tudo isto. Quem é que beneficia com tudo isto? É aqui que me demarcarei dos catatónicos teoréticos da conspiração. Porque a verdade é muito mais deprimente do que isso. Não existe nenhuma grande conspiração, montada por extraterrestres, ou por sombrios homens de fato negro, ou pela maçonaria, ou pelo Priorado do Sião. A verdade é muito mais triste. A única conspiração que existe é a conspiração do próprio intelecto humano contra a humanidade. Temos profundamente enraizado o mito do lucro rápido. Viver no momento, ganhar agora sem pensar no que podemos vir a perder no futuro. Em ultima análise, a ganância é mãe de toda a merda que se acumula no mundo. Enquanto isso não mudar, continuaremos a seguir a passos largos o caminho para o fim inevitável que se anuncia impassível. Comecei com uma citação, vou acabar com um provérbio chinês:

Se não mudares de direcção, podes acabar no sítio para onde te diriges

Ahhh, religions...

When one person suffers from a delusion it is called insanity. When many people suffer from a delusion it is called religion.
Robert M. Pirsig
Zen and the Art of Motorcycle Maintenance

Can you Imagine this?

This post shall be written in English so that it can be read by people all over the World, for I am so utterly shocked by what I just read, I must share it with as many people as I possibly can.

According to Desmond Morris, and he is not the kind of man to make up silly stories, in the US, when John Lennon's legendary song "Imagine" is played on the radio, the line "and no religion too" is often expurgated. Worst even, sometimes it is substituted by the line "and one religion too".
How can one country exist under such an obses
sive religious fundamentalist regime, and still believe they are the homeland of justice and democracy. How is this sordid act of artistic mutilation any different from the Taliban destroying ancient statues in Afghanistan? I don't want to go on bashing Americans, as I know that many Americans aren't really like that and don't share the views of their leaders. In fact, most of the 47% (or probably more) American citizens who didn't vote for George “I hear God in my head” Bush Jr. in the last election, are utterly ashamed by things like what I have just described. I am just glad that I live in Europe, where freedom is really real, where religious freedom does exist, where people are truly free to move, think and behave according to their will and belief.

Just to give my final thought on this matter, I will leave you with John Lennon’s poem, imagining a better World where we could truly be free.

Imagine there's no Heaven
It's easy if you try
No hell below us

Above us only sky

Imagine all the people

Living for today


Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for

And no religion too

Imagine all the people

Living life in peace


You may say that I'm a dreamer

But I'm not the only one

I hope someday you'll join us

And the world will be as one


Imagine no possessions

I wonder if you can

No need for greed or hunger

A brotherhood of man

Imagine all the people

Sharing all the world


You may say that I'm a dreamer

But I'm not the only one

I hope someday you'll join us

And the world will live as one

sexta-feira, junho 29, 2007

terça-feira, junho 26, 2007

Walk the Line

Estive a ver o "Walk the Line". Curioso, nos últimos tempos interessei-me pela música do Johnny Cash, mas só agora vi o filme. Um grande filme, uma das melhores obras biográficas que vi nos últimos tempos. Um homem em conflito consigo próprio, encurralado pelos seus sentimentos, encontrando como única escapatória a sua música... e as drogas. Ao contrário dos habituais finais trágicos das vidas dos grandes artistas, o filme tem um final feliz. Johnny Cash acabou por convencer a sua eterna paixão, June Carter a casar com ele e, por incrível que pareça, viveram felizes para sempre, ou melhor, até 2003, ano em que ambos faleceram, de causas naturais, com apenas 4 meses de diferença. Há quem diga que depois de June ter falecido, Johnny já não tinha motivos para viver e apenas definhou durante mais 4 meses. A parte de mim que é demasiado romântica para o meu próprio bem quer acreditar nisso, mas a verdade é que uma doença prolongada o molestava desde há já muitos anos... Viveram juntos durante mais de 30 anos, compuseram e cantaram infindáveis músicas juntos, deixaram uma marca na música americana do século XX e um filho para assegurar o futuro destes genes na próxima geração.
Que raio, vou admitir a verdade, acho que o Johnny morreu porque não sabia mesmo viver sem a sua June. O que é hei eu de fazer, gosto de finais felizes... mesmo quando no final morrem todos.

domingo, junho 24, 2007

The clock is ticking?

And it finally hit me has I was reading something about Inuit legends and how they have roamed the white covered ice plains of the high artic.
Time. Even more tragic then money, time was the most awful creation of our modern western society. Time is the prison in which we chose to lock our selves.
An Inuit said that the difference between their original way of life and the newly acquired western like living that the modern world brought into the Artic was this new concept of time. The idea that time spent waiting is time of your life that goes to waste. The concept that when you are not doing something "usefull", you are wasting your life. The Inuit believe that things happen in their own course, time is of no importance. If you must wait for two days until the seal you are trying to hunt shows her self over the hole in the ice, those two days were not wasted, and it was just the way the world is.
This simple concept, this apparently easy way of accepting the world has it is without imposing our own logic, without expecting things to follow our ever-tighter schedules is, in my opinion, the main reason for the downfall of our way of living.

Or do people still think that everything around us is still OK, that we are evolving towards the perfect society (and I don't mean this in a socialistic framework)?

Read the statistics, look around you... People are unhappy, depression plagues western countries like the dark cloud of the bubonic plague of the Middle Ages. Stress related diseases, heart conditions, anorexia burns like fire within our youth, psychiatric disorders are at an all time high, suicide rates reach absurd levels in countries were life quality is believed to be the best in the world. A greyish gloom hovers over our fast paced lives. People can't leave without consuming absurd amounts of caffeine, anseolithics, anti-depressives. Why not make marijuana legal everywhere? It would be just another quick solution to a far more overwhelming problem.
The problem is easy to pin-point, but extremely hard to solve: we were made believe that every second of our lives not spent doing something useful is time when we are wasting our life, the only one we have. This means that even in does few moments of rest we still have, we must try to keep ourselves busy, if we are not working we are studying, hobbying, filling our time in any way possible to avoid the emptiness of wasted time. We drain our selves to a ragged piece of tiered human cells and organs, too drained to go on without chemical or psychiatric comfort.

Throw your clocks away. Tell your employers to screw themselves when they ask you absurd deadlines, cherish the time you have for doing absolutely nothing. Go to nearest and beach and spend a few hours staring at the never-ending beauty of the see, visit the closest forest and let your self be comforted by the sights and sounds that surround you. Take the one you love in your harms and hold them regardless of the time that passes, of the many things you "must be doing" elsewhere. Forget about time, forget that it ever existed. Maybe there is still hope for us, if we can ever forget this dreadful idea that time is our enemy...

quarta-feira, junho 20, 2007

The grim reaper


The grim reaper lurked behind the shadows, his scythe standing motionless just inches away from the darkened window of the room. His black empty eyes stared at the scene that went on inside, in the dark, in the deadly silence that shouted out the terror within.

Inside the room a young girls looked at her self in the mirror. She was pretty. Long brown hair, sweet round face with a perky little nose, big green eyes, and a mouth that could open up into a smile able to melt the coldest ice.

Over the table a 13 page long letter explaining the world why the thing she wanted the most in this world was to die, in her end a pair of scissors ready to cut through her perfectly shaped white wrists. Ready to carve deeply into her flesh, ready to open up veins and arteries, ready to spread all across the floor the fluid of her life.

Death waited silently for the play to continue its tragic course. That was her true purpose, to wait for as long as necessary for human lives to come to her and join her in their last journey.

The letter talked about a great many things, about beauty, about affection, about ugliness and rejection. Mostly it talked about loneliness. The girl was lonely. Despite the daily presence of her family, the conversations with her school friends, during the dark watches of the night she felt the solemn despair of the lonely. Loneliness and the feeling of being unwanted is the most terrible poverty that can afflict man, for it is not good for man to be alone. She ached for a soul mate with whom to share her gloom, for a pair of ears to listen to her pains, for some words to ease her sorrow.

Slowly, yet purposely, her hand grasped the handles of the scissors and started to cut her own flesh. Without a single murmur, without a single tear, the red line of blood started to drip into the floor of the room. She went without a sound, her life slowly dripping away from her like the blood that now soaked the carpets.

The grim reaper held out its hand towards her and as she took its bony fingers in hers, they both started a journey to a place from where no man as ever returned.

terça-feira, junho 19, 2007

Life Wasted

Ever felt like you were wasting your life on a job that doesn't give you credit, on people who don't realize how much you have to offer them? At a certain point you can't avoid thinking if there was ever a point...

domingo, junho 17, 2007

Desculpem a falta de inspiracao. Excesso de trabalho, falta de descanso, excesso de saudades, falta de animo... O post de hoje fica por cargo dos grandes U2 e daquele que foi talvez o melhor video da historia do Rock!

quarta-feira, junho 13, 2007

Cansaços

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
Olha-se para dentro e já pouco sobeja
Pede-se o descanso, por curto que seja

One more month, one more month, one more month. Depois do sprint final o descanso merecido, espero!


The Luckiest

São poucas as músicas que me soam bem à primeira... esta deixou-me maravilhado.
Talvez porque tenha muito que ver comigo.
Apreciem

quinta-feira, maio 31, 2007

Quintas-feiras Culturais XXXVI

Hoje a cultura fica por minha conta. Tudo bem, eu aceito bem comentários negativos...

No teu olhar nasci
Num dia igual a outro qualquer
Nos teus braços vivi,
Respirei em cada segundo pela primeira vez
Longe de ti cresci
Chorei, sofri, aprendi que viver é sobreviver
No teu sorriso, um dia, renasci
Sorri, cantei, dancei
No meu íntimo um dia percebi
Eu sem ti não existo, não sou nada, não faço sentido
E numa palavra apenas o escrevi
Amo-te

terça-feira, maio 29, 2007

Do cansaço e da vida

Quando a carne fraqueja sob o peso do seu fardo
Quando o espírito quebra sob o peso da responsabilidade
Quando o alento se esvai como sangue numa ferida aberta
Quando a hora se alonga como um pêndulo sem fim

Está na hora de erguer um olhar desafiador
e enfrentar o chicote da vida sem qualquer temor


Eu próprio, prostrado aqui depois de mais um dia de trabalho sem fim

domingo, maio 27, 2007

When did we ever need god?

Isn't it enough to see that a garden is beautifull without having to believe that there are fairies at the bottom of it to?

sábado, maio 19, 2007

Song to song

Usando uma linha dos REM, deixo por aqui pelo ciberespaço alguma ternura e saudade.

This one goes out to the one I love...

Vai minha tristeza e diz à ela que sem ela não pode
ser. Diz-lhe numa prece que ela regresse, porque eu
não posso mais sofrer.

Chega de saudade, a realidade é que sem ela não há
paz, não há beleza é só tristeza e a melancolia que
não sai de mim, não sai de mim, não sai...

Mas se ela voltar, se ela voltar, que coisa linda...
que coisa louca... pois há menos peixinhos a nadar no
mar, do que os beijinhos que eu darei na sua boca.

Dentro dos meus braços, os abraços hão de ser milhões
de abraços: apertado assim, colado assim, calado
assim; abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim, que
é para acabar com esse negócio de você viver sem
mim,não quero mais esse negócio de você longe de mim.


Vai minha tristeza e diz à ela que sem ela não pode
ser. Diz-lhe numa prece que ela regresse, porque eu
não posso mais sofrer.

Chega de saudade, a realidade é que sem ela não há
paz, não há beleza é só tristeza e a melancolia que
não sai de mim, não sai de mim, não sai...

Mas se ela voltar, se ela voltar, que coisa linda...
que coisa louca... pois há menos peixinhos a nadar no
mar, do que os beijinhos que eu darei na sua boca.

Dentro dos meus braços, os abraços hão de ser milhões
de abraços: apertado assim, colado assim, calado
assim; abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim, que
é pra acabar com esse negócio de viver longe de mim.

Não quero mais esse negócio de você viver assim!
Vamos deixar desse negócio de você viver sem mim!
João Gilberto

quinta-feira, maio 17, 2007

Shit Happens

Atravessando a floresta, depois de dias de caminho árduo, ele procurava pistas. Nos cheiros da floresta, nos tons do arvoredo, nas folhas pisadas no chão. Seguía o caminho que a justiça lhe tinha indicado, a crença cega em que depositara todo o seu ser, aquela chama, por vezes tão pálida, que o mantinha no seu caminho.
Parecia difícil acreditar que seguía o percurso correcto, duvidas assaltavam a sua mente como ondas numa costa rochosa.Naquela floresta, naquele bosque lindo onde as flores e os aromas inundavam o ar com todas as cores, naquele local onde a própria luz parecia arder de alegria, ele duvidava. Estaria a sua crença correcta, seria realmente aquele o percurso que o levaria ao seu percurso correcto.
Parou numa clareira luminosa, por um instante apenas parou para pensar, deixou-se apreciar o delicado misturar das cores da luz por entre as mil folhas caducifólias. O cansado tentilhão pousou num ramo e suspirou. Pensou naquele instante de descanso que se permitira, pensou nas esperanças que o levaram a iniciar o seu vôo pela floresta. No quanto desejava uma vida calma, descansada, feliz e preenchida, ter a calma e ternura da floresta a preencher o seu caminho.
Por azar, um gavião avistou-o. Num ápice, ágil como um gavião em voo, a ave de rapina caçou a pequena ave e estripou num segundo, com um corte ríspido e certeiro, toda a sua construção de sonhos e esperanças, toda a sua existência sonhadora e idealista.
No ninho do gavião, foi dia de festa, comida para toda a pequenada. Já dizia o escaravelho-bosteiro: "shit happens"...

segunda-feira, maio 14, 2007

Hayfields

Beauty is in the blossoming colour of flowers
In chicks peaking through an hatching egg
In the wind blowing in your hair

In the love that two people can share


Pain lays only in the loneliness of the human heart




oh lord thou art in heaven, hallowed be thy name

quinta-feira, abril 26, 2007

Quintas-feiras Culturais XXXV

Diz que hoje e quinta-feira, dia de espalhar alguma cultura por este mundo. Para hoje, Garrett...

As Minhas Asas
Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.
– Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.

Veio a cobiça da terra.
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
– Veio a ambição, co'as grandezas,
Vinham para mas cortar
Davam-me poder e glória
Por nenhum preço as quis dar.

Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra
Batia-as, voava ao céu.
Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,

– Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.

Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!

– Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu
Pena a pena me caíram...
Nunca mais voei ao céu.

Almeida Garrett

quinta-feira, abril 19, 2007

Monday, Bloody Monday

Corria o ano de 1983 quando os U2 cantavam "Sunday, Bloody Sunday" para criticar uma guerra sem fim e sem sentido que rasgava a sangue e lágrimas uma Irlanda partida ao meio por eternos ódios religiosos seculares. Quando vai o todo poderoso governo americano perceber que a sua posição em relação ao porte de armas leva o seu país a arrastar-se numa absurda guerra interna. Quanto mais sangue de inocentes terá de ser espalhado pelas escolas, escritórios e hospitais americanos até que os governantes deixem de dar ouvidos ao poderoso lobby da NRA e tornem o óbvio uma realidade no "país mais poderoso do mundo": As armas não são brinquedos que toda a gente pode ter em casa.

terça-feira, abril 17, 2007

Deus?

Imaginem que têm uma premonição de que algo de horrível vai acontecer. Na forma de um sonho por exemplo. Imaginem que acordam e passam o dia inteiro a tentar mandar o mal-estar que vos consome o estômago para trás das costas. Imaginem que depois de finalmente se terem conseguído acalmar, descobrem que a vossa premonição estava certa.
Posso dizer que não tem graça absolutamente nenhuma.

Será que afinal Deus existe, mas é simplesmente uma criança maquiavélica que nos usa para alimentar o seu perverso sentido de humor?

sexta-feira, abril 13, 2007

Alegoria do herói

Muito sinceramente, acho que nunca serei um muito bom biólogo. Sou demasiado disperso. Passo horas e horas no campo e acabo por me distrair sempre a pensar sobre assuntos tão distantes do que estou de facto a fazer que as vezes me parece que talvez a minha verdadeira vocação fosse a filosofia. Ou talvez não...
Surgiu-me no outro dia uma alegoria que me parece inquietante e de resolução dificil. Coloque-mos dois homens, dois homens banais numa mesma situação. Ambos são judeus, vivem em Varsóvia em 1939, ambos estão agarrados por dois soldados das SS e à sua frente têm o seu filho (ou a mulher, ou o irmão, ou outro alguém que amam verdadeiramente) e um tenente alemão com uma arma apontada à cabeça desse ente querido. Na sua cabeça guardam um segredo que, mantido como tal, poderá salvar a vida de milhares de outros judeus, a escolha, só uma: ou revelam o segredo ou a pessoa amada será morta ali mesmo, a sangue frio.

O primeiro, guardou o segredo, assistiu à morte de uma pessoa que amava e teve de viver o resto da vida com a imagem dessa cena na cabeça e com a certeza que essa pessoa morreu por sua culpa. Contudo, a sua coragem e sacrifício salvaram milhares de vidas.
O segundo, revelou o segredo. Os alemães cumpriram a palavra e ele e outra pessoa sobreviveram e viveram muitos anos felizes, mas teve de viver para sempre com a certeza de que milhares morreram devido à sua indiscrição.

Agora a minha pergunta, qual dos dois é um herói?

sexta-feira, abril 06, 2007

Poesia absurda

White neck
Lots of white
Almost would call it
A satellite

Um momento de poesia absurda resultante de uma observação. Esta foi a minha descrição de um pássaro no campo. Uma colega virasse para mim e diz, "hei Pedro you are a poet, your description rhymes and has perfect metric". E tem mesmo... Ainda dizem que ciência não é arte

Um cheirinho do meu trabalho

Hoje o dia correu-me bem, vi uma série dos meus bichos marcados com anilhas e um deles foi até simpático ao ponto de posar para a foto. Apresento-vos o Y1WYBY:

segunda-feira, abril 02, 2007

Tugazices

Ontem rumei a Amsterdam para ver o Benfica-Porto no mítico "Lusitano" o tasco onde os portugueses do burgo se juntam para os eventos culturais lusos. Foi bonito no centro de Amserdam ver um bando de gente a gritar pelo Benfica e pelo Porto, a chamar nomes bonitos ao árbitro e a discutir as habituais questões inatáceis do futebol, era cartão ou não? Estava fora de jogo ou não? Eu depois de ter sugerido que o Bruno Morais do Porto era um carniceiro que merecia ter sdo expulso nos primeiros 5 minutos recebi um olhar de tal forma amistoso de um gajo com ar de manfio e camisola com o dístico "Super Dragões", achei por bem manter um low profile, ainda assim não resisti a dizer, já perto do final, que o Porto havia de perder com um golo do Mantorras no último minuto. Quando isso quase aconteceu mesmo no jogo apercebi-me que possivelmente os ditos elementos dos Super Dragões ali presentes me teriam possivelmente lançado para um mergulho nocturno num dos canais da bela Amsterdam, com uns sapatinhos de cimento calçados... Ah saudadinhas de Portugal

Foi pena o Benfica não ter ganho, depois do monumental banho de bola que deu ao Porto, mas ao menos sobrevivi à minha noite no "Lusitano"

quinta-feira, março 29, 2007

Quintas-feiras culturais XXXIV

Pois é, até aqui na Holanda é quinta-feira, o fim de semana está quase a chegar e é dia de espalhar um pouco de cultura.

Por que me falas nesse idioma? perguntei-lhe, sonhando.
Em qualquer língua se entende essa palavra.
Sem qualquer língua.
O sangue sabe-o.
Uma inteligência esparsa aprende
esse convite inadiável.
Búzios somos, moendo a vida
inteira essa música incessante.
Morte, morte.
Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.
A vida é a vigilância da morte,
até que o seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir.

Cecília Meireles

quarta-feira, março 28, 2007

Lack of faith

Primeiro, bem cedo por sinal, perdi a minha fé na existência de Deus. Substituía por uma fé fortíssima na ciência que foi durante anos o meu deus. Nos últimos tempos perdi também a fé na ciência, que cada vez me diz menos...
Agora resta-me um ultimo resquício de fé... e se esse também desaparecer, o que acontecerá? Tornar-me-rei o "Super homem" de Nietzsche? Ou simplesmente cairei na loucura?

Just wandering...

terça-feira, março 27, 2007

Holanda


E cá estou eu de volta à Holanda. Continua tudo plano, tudo verde, tudo calmo. O tempo está estranhamente bom, solzinho o dia todo e apesar do vento gélido cortante pode-se dizer que se está até bastante bem no campo...

segunda-feira, março 19, 2007

O Nosso Mar - adeus

Na hora de mais uma partida para a Holanda, depois de despedidas e mais despedidas, hoje fui-me despedir dele ali à Foz do Arelho... do mar... do Nosso Mar!

segunda-feira, março 12, 2007

Venha mais Zeca

Não é quinta feira, mas sabe sempre bem lembrar o nosso Zeca.

Venham Mais Cinco

Venham mais cinco
Duma assentada
Que eu pago já
Do branco ou tinto
Se o velho estica
Eu fico por cá

Se tem má pinta
Dá-lhe um apito
E põe-no a andar
De espada à cinta
Já crê que é rei
Dàquém e Dàlém Mar

Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar

A gente ajuda
Havemos de ser mais
Eu bem sei
Mas há quem queira
Deitar abaixo
O que eu levantei

A bucha é dura
Mais dura é a razão
Que a sustem
Só nesta rusga
Não há lugar
Pr'ós filhos da mãe


Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar


Bem me diziam
Bem me avisavam
Como era a lei
Na minha terra
Quem trepa
No coqueiro
É o rei

quinta-feira, março 01, 2007

Desbaratar ou não desbaratar...

Desbaratar. Eis uma palavra do léxico português que não se vê com muita frequência. Pessoalmente só a tinha avistado a espaços e geralmente associada a livros de história ou a textos de jornalismo de guerra, associada a frases como "A companhia 23 foi completamente desbaratada pelo avanço rápido das forças inimigas durante a batalha do Monte Calvo".
Que o futebol às vezes é uma guerra já eu sabia, mas foi com alguma surpresa que li no outro dia no Publico, num texto sobre o ultimo jogo do Sporting de Braga, a palavra desbaratar surgir não uma, mas duas vezes.
Dizia então o repórter: "O avançado desbaratou o penalty ao chutar a bola contra o ferro da baliza" Brilhante, não? Mas não se ficou por aí, passadas uma dez linhas lá vinha: "uma grande chance completamente desbaratada pelo jogador que se encontrava isolado frente ao guarda-redes".

Convém agora perguntar, o que significa então desbaratar?

Desbaratar: esbanjar, dissipar, vender por preço baixo, derrotar, destruir

Tenho de dar o braço a torcer e dar razão ao jornalista, desbaratar aplica-se a estas situações! Parabéns pelo bom uso do português! Mas talvez um dicionáriozito de sinónimos para evitar usar a mesm palavra cara duas vezes de seguida, não?

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Ainda o referendo...


Do lado esquerdo um embrião de um rato, do lado direito um embrião humano. Ambos na terceira semana de desenvolvimento intra-uterino. Segundo os habituais argumentos do Não, o da esquerda tem direito à vida, ou não? Então ele não tem mãozinhas, pezinhos, cabecinha e um coraçãozinho a bater? Já o da direita, dificilmente pode ser classificado à primeira vista como um vertebrado, anda mais próximo de um verme. Contudo, os mesmos adeptos do Não que usam os argumentos das mãozinhas, pezinhos e outros inhos dirão que o da esquerda não tem direito à vida, o da direita sim... Em que ficamos afinal?

sábado, fevereiro 03, 2007

Samuel

O metropolitano rugiu por entre os frios túneis de cimento, num percurso repetido vezes e vezes sem conta, submergindo no espaço aberto da estação como uma baleia cinzenta na vastidão azul do oceano. Sentado sob as pardacentas luzes tremeluzentes da estação, Samuel dardejava com o olhar os transeuntes, que se deslocam impacientemente para a plataforma onde chegava o comboio nocturno. Ele sempre fora um indivíduo solitário, suspeitando dos poucos sorrisos que lhe eram dirigidos, mas enquanto observava as faces vazias dos passageiros, não conseguia evitar perder-se nas inimagináveis histórias que podiam estar a decorrer à sua volta.

Talvez a velhinha, de olhar doce e cachecol verde-acastanhado, fosse realmente um agente secreto a soldo de um qualquer poder baseado no Próximo Oriente, cujo único propósito era destruir a vida dos cidadãos honestos e respeitadores da lei deste país. Ou talvez o homem gordo, de roupas bem arranjadas e capachinho de qualidade duvidosa, pertencesse a uma facção alienígena e se preparasse, através de uma cuidadosa dissimulação dos seus três olhos e pele verde, para tomar o lugar do primeiro-ministro e assim abrir caminho para a inevitável invasão. Apesar da sua prodigiosa imaginação, Samuel nunca tentara colocar os seus devaneios sãos no papel e produzir um romance. Não acreditava que o mundo pudesse ser resumido a meros conjuntos de letras, espalhadas sobre uma frágil folha de papel como crianças no pátio de uma escola. Nunca aceitaria que uma frase, um capítulo, ou mesmo um livro inteiro, pudessem sequer aproximar-se de uma descrição fiel do modo como a luz da lua se reflecte num caco de vidro abandonado sobre o asfalto de uma estrada numa sufocante noite de Agosto.

Samuel levantou-se calmamente, com a lentidão segura de quem já aprendera a valorizar a calma como virtude máxima da vida citadina. As suas passadas, caracteristicamente longas e pesadas, levaram-no na direcção do comboio, onde se sentou à janela. Era um velho hábito, daqueles que são difíceis de perder. Desde pequeno que se habituara a procurar lugares à janela, no metropolitano, como se nas profundezas da sua mente se mantivesse acesa a pequena esperança de um dia, ao olhar pela janela, não ver o cimento enegrecido dos túneis talhados sob a cidade, mas sim uma paisagem verdejante em que esvoaçassem aves brancas sob as nuvens sorridentes de um dia de Primavera. Ao olhar a janela viu-se a si próprio. O seu reflexo relembrava-lhe a sua mortalidade em cada um dos cabelos grisalhos que se começavam a insinuar por entre a sua farta cabeleira escura. Olhava para um homem que já passara a barreira dos quarenta, em que leves rugas deixavam antever a história de vida bem preenchida de aflições e deveres cumpridos, mas cujo olhar mantinha uma jovialidade contagiante por trás das íris castanhas-claras.

O comboio rugiu o seu percurso rápido pelos corredores deste espaço sub-citadino, o expoente máximo da alienação urbana. O passar das diferentes estações, pérolas de cor animadas pelos devaneios artísticos de um qualquer arquitecto, era apenas ritmado pelos sonoros apitos do metropolitano, gritos irritantes de uma criança irrequieta que pareciam gritar “despachem-se, despachem-se, despachem-se”. Uma estação. Arcos verdes, azulejos vermelhos, as cores das luzes reflectiam caras estranhamente familiares, como se todos os habitantes da cidade fossem irmãos à muito perdidos. Segunda estação. Paredes brancas, salpicadas por gotas de vida escritas por um poeta à muito falecido, pequenos farrapos de génio humano ali deixados, abandonados ao desprezo de todos os que por ali passavam a cada dia. Terceira estação. Riscos amarelos quase gritavam num turbilhão de cor, destinado a distrair os olhares perdidos com a subtil esperança de dias mais felizes, menos opressivos. O metropolitano avisava já, histérico, a proximidade da quarta estação quando Samuel o viu. Num relâmpago de impossibilidade, um rosto, talvez humano, olhou para ele, de fora do comboio, para imediatamente ser deixado para trás pelo rápido avanço do metropolitano. Teria sido meramente uma ilusão de óptica, não fora a poderosa impressão que num instante apenas marcara profundamente a alma de Samuel. O olhar suplicante, o desespero gritado a plenos pulmões por um simples brilhar mortiço de dois olhos azuis. Num segundo apenas, Samuel ficou preso naquele túnel para sempre, sem o saber.

O impulso de fazer parar o comboio, recorrendo ao manípulo de emergência expressamente proibido, foi apenas debelada pelo forte instinto cumpridor de quem, durante quarenta anos, aceitou submeter-se às regras e leis de uma cidade sem cor. Samuel ficou sentado no seu lugar, inquieto, ofegante, incapaz de compreender o que se tinha passado. A sua inquietação foi tal que o passageiro que viajava no lugar adjacente lançou-lhe mesmo um improvável olhar de curiosidade, como se a súbita inquietação do seu companheiro de viagem tivesse sido suficiente para o fazer perder a linha de pensamento que o desligava da realidade, tornando, por um segundo apenas, quase humano. Rapidamente mudou a expressão para uma franzida reprovação, retomando o seu frio olhar dirigido ao horizonte inexistente.

A viagem continuou e o metropolitano chegou à estação seguinte, esta a típica estação de metropolitano à antiga, de paredes tão cinzentas como as dos túneis negros por onde deambula esta grande toupeira urbana. Samuel levantou-se e pediu delicadamente licença para passar ao passageiro que se sentava ao seu lado, tendo este apenas respondido com um subtil movimento das pernas para lhe permitir a passagem, enquanto mantinha a expressão de vaga reprovação como quem pensa para si próprio “esta cidade está cheia de loucos, livra!”. Samuel dirigiu-se pausadamente até à porta da carruagem, roçando com o olhar uma jovem rapariga cujas pernas bem torneadas eram evidenciadas pela saia curtíssima. Nunca fora um mulherengo, nem podia gabar-se de grandes façanhas românticas, mas não resistia a lançar um olhar agradado à visão de uma mulher bonita. Ultrapassou a porta do metropolitano enquanto o sinal sonoro começava já a avisar com a sua habitual pressa incontida a eminência do fecho das portas, após o que se dirigiu ao átrio da estação.

Longe de notar a publicidade a filmes, viagens e lâminas de barbear que lhe bombardeavam a mente, o seu pensamento ficara preso aos olhos azuis suplicantes que pensava ter avistado nos túneis do metro. Pensou nesse olhar enquanto permitia que a escada rolante o transportasse até ao piso superior, continuou a relembrar os olhos azuis enquanto passou por dois pedintes cegos que lhe lançaram as habituais súplicas desprovidas de esperança, via as duas orbes azuis como duas manchas gravadas a fogo nos seus olhos enquanto o ultimo lance de escadas o devolveu à alegria da luz solar.