quarta-feira, setembro 19, 2012

Postais das Selvagens


25 – Azuis impossíveis

Uma tentativa de fotografar os azuis impossíveis do mar
em redor da Selvagem Grande, mas que não faz de forma
alguma justiça à realidade.

A segunda estadia começou sobre ventos fortes e céus nublados. Foram os mesmos ventos que tanto trabalho deram aos bombeiros que combatiam os terríveis incêndios que assolaram a Madeira nessa altura. O constante uivar do vento é cansativo, a alguns pode até levar às margens ténues entre a sanidade e a loucura. Para mim o pior é mesmo o esforço extra em tudo o que fazemos. Os papéis voam, as páginas dos cadernos esvoaçam, o material no campo salta e foge e a pesagem das crias, com uma pesola, torna-se um verdadeiro pesadelo. Eventualmente tivemos de começar a levar connosco um balde fundo onde podíamos fazer as pesagens sem a perturbação do vento.
Ao fim de 5 ou 6 dias veio finalmente tempo melhor. O dia nasceu cinzento, mas o vento tinha abrandado e pela tarde a ilha foi emersa numa tarde verdadeiramente gloriosa. Para aproveitar o bom tempo saímos de bote, para visitar algumas zonas da ilha só acessíveis por mar. Contornamos a ilha por norte, chegando à Baía da Atalaia, dominada pelo farol da ilha. Em certo ponto existe um local onde o mar penetra a falésia num rasgo fundo, com uns quatro metros de largura e uns cinquenta ou sessenta de comprimento, onde é possível entra de bote. Sob o sol que entrava entre as rochas, a água é infinitamente límpida e quando mergulhamos o azul, claro e fundo em simultâneo, era uma daquelas cores impossíveis que parecem só existir na paleta de cores dos programas de edição de imagem.
Continuamos a seguir a costa da Baía da Atalaia até um recanto onde o Lourenço tinha de ir a terra para eliminar alguns exemplares de Nicotiana, plantas invasoras que o Parque Natural tem vindo a tentar eliminar da ilha. Existem na ilha duas espécies, ambas não nativas, sendo uma delas a planta do tabaco. Voltamos a mergulhar, agora numas águas em tudo semelhantes às da Baía das Cagarras, junto à casa, onde nado diariamente. A diferença era os peixes, ainda mais abundantes e em tamanhos impressionantes. Vimos garoupas com mais de meio metro, um encharéu enorme, que teria talvez perto de um metro de comprimento, e vi finalmente duas das espécies que me iam escapando nos meus mergulhos: o mero e o sargo-veado. O mero era um exemplar relativamente pequeno, tendo em conta que esta espécie chega a atingir os dois metros, tratava-se de um exemplar com não mais de cinquenta centímetros. Os sargos-veados são semelhantes ao sargo comum, mas com largas bandas pretas ao longo do corpo, que lhe dão um aspecto de zebra marinha.
Antes de voltar à base, afasta-mo-nos da ilha para espreitar o Baixio da Joana, uma formação rochosa submarina localizadas a cerca de um quilómetro de terra, que em algumas zonas quase chega à superfície do mar. Voltamos a mergulhar. Aqui estávamos claramente já nos domínios de Neptuno. À nossa volta o oceano era de um tom de azul tremendo, uma cor forte, profunda, refrescante, quase assustadora, mais um azul impossível por entre o qual nadavam literalmente milhares de peixes. As espécies eram as mesmas que vemos em terra, as preguiçosas, as bogas, as dobradas, mas aqui formavam enormes cardumes que teriam de certo vários milhares de indivíduos. Nadei por ali alguns minutos, quase com vontade de chorar perante tanta beleza. Não chorei, mas absorvi profundamente aquelas imagens para não mais esquecer.

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